Tempo de gentileza

Se por um acaso algum de vocês me ver, andando pelas ruas, vestido com uma bata branca, barba crescida, uma placa colorida nas mãos, com os dizeres “Gentileza gera Gentileza”, não se preocupem. Eu não enlouqueci. Estarei apenas ajudando o Profeta a pregar suas palavras.
E aqui sobremaneira não falo de um profeta bíblico (embora as mensagens que propagava contenham trechos bíblicos). Não, por favor, não pare de me ler, pensando que a partir de agora vou falar de um católico arraigado contrário à união entre gays ou qualquer coisa do gênero que propague a tolice pelo mundo. Muito pelo contrário.

Mesmo que você nunca tenha ido ao Rio de Janeiro, já ouviu falar de Gentileza. Foi Marisa Monte quem o apresentou, em larga escala, ao Brasil. Gentileza era o velhinho simpático a quem os cariocas chamavam gentilmente de Profeta. Há, nas pilastras do viaduto do Caju, na Cidade Maravilhosa, 56 escritos de Gentileza (também não falo de um Rio de Janeiro chique e elitista: as pilastras ficam próximas à rodoviária, só as vê quem conhece a Zona Norte da cidade ou chegou a ela de ônibus).

Nascido José Datrino, em 1917, no interior de São Paulo, esse simpático velhinho passou a ser conhecido como Gentileza depois de um incêndio ocorrido no Gran-Circus Norte Americano, instalado em Niterói, em 1967 do qual, ao contrário do que se pensa, ele não foi vítuma. Teve, ao ver o desastre, um insight divino, vendeu seus caminhões (tinha 3) e passou a profetizar a Gentileza pelo país.

Desculpa. O Gentileza não era gay.

Estou falando dele porque ando me sentindo tão ofendido. Enquanto cidadão. Em meus direitos mais básicos. Anos e anos de religião preenchendo a mente das pessoas não teria um fim diferente. Sou um cidadão que, além de considerado de segunda categoria por mentes brilhantes como a de certos deputados que não é necessário nomear, é sobretaxado. Pago mais impostos e tenho menos direitos.

Ainda assim, meu Estado é laico. Mas meu Congresso tem uma bancada evangélica (religiosa, portanto), que tenta impor suas crenças a todo o país. Foi Deus quem disse (segundo a Bíblia), que devemos nos amar uns aos outros. E o fez nos termos que reproduzo: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo.” (João, 15: 12-17) (sim, eu tenho uma bíblia – empoeirada, mas ainda assim minha). Me pergunto porque é que esse senhor deputado, da bancada evangélica, representante eleito dos cidadãos do país, não segue os preceitos da sua religião. Bem, o pecado é dele, que fique bem claro. Crente que é, o mínimo que lhe está reervado é um bom purgatório, já com uma fumaça bem ardida de enxofre saindo pelo chão.

É por isso que resolvi falar do Gentileza. Esse amável velhinho percorreu todo o Brasil levando sua mensagem de amor e paz para onde conseguiu. No Paraná, esteve em Paranavaí (não tinha roteiro, andava de carona e seguia para onde o levassem), mas deixou sua maior marca no Rio de Janeiro. As pilastras foram apagadas pela Prefeitura, foi um movimento popular que fez com que fossem restauradas. Amando-nos uns aos outros ou sendo simplesmente gentis, o que o Profeta – e Deus – dizia é que devemos nos respeitar em nossas diferenças, sobretudo. Que cada um de nós deve ter seu espaço, e tê-lo respeitado pelo próximo, assim como não devemos ultrapassar nossos limites para atrapalhar o espaço dos outros.