A Ópera da Palavra Viva

A peça “Ópera dos Vivos – Estudo em 4 atos”, foi apresentada ontem em Maringá pela premiada Companhia do Latão (São Paulo) dentro da programação da I Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá. A apresentação de quase duas horas, contemplou apenas o primeiro ato e emocionou a platéia que ocupou todas as poltronas (e espaços vagos) do Teatro Oficina da UEM.
Construída no entrecruzamento de imagens, simbolismos e diferentes linhas narrativas, a Ópera condensa múltiplos sentidos, e como um coro polifônico, multiplica seus temas e destinatários. Ela fala, por exemplo, do contexto histórico-social dos anos que antecedem o golpe militar no Brasil, ao insinuar a mudança de tutela que operou por meio da substituição do pai de família pelo proprietário de terras, e deste pelos generais. Fala também da necessidade de se fazer frente ao instituído-opressor, e da retomada de uma relação criativa e política com trabalho. E aponta para o caráter essencialmente coletivo desta retomada, reverberando com o pensamento de Paulo Freire segundo o qual “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho; os homens se libertam em comunhão.” Dialoga, portanto com o trabalho de intelectuais (como Freire) e artistas (como àqueles ligados ao Centro Popular de Cultura – CPC) que nas décadas de 60 e 70 apostaram em possibilidades de transformar as relações sociais produtoras de desigualdades.
Concebida enquanto um estudo, as questões que norteiam a construção da Ópera, segundo seu diretor, procuram investigar como as relações de trabalho afetam o modo de produzir teatro e cultura, sobretudo em contextos nitidamente marcados pelo predomínio da lógica do consumo. Neste sentido, a peça é atravessada por um fio que salienta a o valor dialético da palavra: ao mesmo tempo um produto cultural e uma ferramenta simbólica que transforma o mundo. É pela palavra que uma das personagens irá produzir sentido sobre seu mundo em encarnações personalizadas de ditos populares. É pela alfabetização que outra personagem irá descobrir que ler é usar dos olhos para “fazer as palavras falarem”. É na carta de uma mãe, que palavras se formarão em um chamamento, convocando filhos a se tornarem autores de suas histórias.
O conflito de classes apresentado pela peça é uma denúncia, se tomado no pano de fundo de 2011, quando as disputas políticas parecem ter sido absorvidas pela lógica de mercado neo-liberal. Ela denuncia o esvaziamento contemporâneo do valor da política e das organizações coletivas. Ela alinha a alienação do trabalhador oprimido com a atual massificação do espectador hipnotizado pelos produtos televisivos. Ela sugere que lógica do consumo se articula à arte produzindo uma experiência que prioriza o impacto emocional e estético em detrimento do engajamento crítico. E ao retomar uma dramaturgia que não abre mão de seu conteúdo, ela sugere que a paixão formalista no teatro contemporâneo pode ser equivalente à construção mercadológica de atraentes embalagens vazias. Retomar o conteúdo é reinvestir a palavra. Reinvesti-la significa refazer seus laços com o mundo, com o coletivo que a produz e sustenta, e com os ideais aos quais nos dirigimos. É esta palavra viva e encarnada em ato que nos transforma.