A cena do descompasso: duas considerações a partir da I Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá

A I Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá que se encerrou neste domingo, convida a duas considerações importantes sobre o contexto das artes cênicas na cidade. A primeira delas diz respeito à atual força de renovação deste campo cultural e a segunda denuncia a dificuldade da administração pública em acompanhar este movimento.
A realização bem sucedida da Mostra é, em parte, resultado do amadurecimento e capacidade de articulação e organização de grupos e pessoas historicamente envolvidas com o teatro de Maringá. A lista extensa de empresas e instituições que apoiaram a Mostra indica o número de agentes que necessitam ser mobilizados para que um evento deste porte se viabilize. O conjunto de peças apresentadas sugere a capacidade de comunicação da organização do evento com grupos de teatro consagrados, e o público que lotou quase todas as apresentações atesta o quanto este tipo de iniciativa responde aos interesses de uma população cada vez mais interessada em arte.
A força deste momento não é um fenômeno isolado. Desde o início do ano, Maringá teve pelo menos uma peça de teatro em cartaz em quase todos os finais de semana (para além das tradicionais apresentações no programa Convite ao Teatro). A Universidade Estadual de Maringá, passou a oferecer neste ano o curso de licenciatura em artes cênicas, trazendo para a cidade um contingente de alunos e professores que fortalece o movimento artístico da região. A mesma instituição organizou o Festival Maio no Palco e já prepara a Mostra de Teatro Universitário para outubro. Ainda este ano acontece a quinta edição do Festival de Teatro de Bonecos. A peça “O Guarani: o amor de Peri e Ceci” da companhia Circo Teatro Sem-Lona acaba de receber o prêmio de melhor ator coadjuvante e o segundo lugar de melhor peça no festival de teatro de Limeira. O espetáculo “A Visita da Velha Senhora”, produzido pelo Teatro Universitário de Maringá, foi uma das 18 peças selecionadas para participar do Festival Nacional de Teatro Universitário de Patos de Minas. Neste cenário, a I Mostra de Teatro Contemporâneo, amplia as reverberações desta renovação, destacando-se sobretudo pelo arrojo na composição do programa com excelentes apresentações e no alcance que supera as fronteiras do contexto universitário.
Em descompasso com este movimento, a administração pública parece se limitar a oferecer o Convite ao Teatro, à Dança e à Música. No momento em que foram lançados, os Convites representavam uma importante contribuição à cidade na medida em que garantiam uma programação cultural de qualidade, gratuita e constante. Pode-se inclusive, considerar que a atual potência das artes cênicas em Maringá é de certo modo tributária desta iniciativa. Também é necessário dizer que a Prefeitura Municipal de Maringá é uma das parceiras na organização da Mostra, embora a concretude desta parceria pareça um tanto obscura (nenhum evento foi realizado em espaço público municipal, por exemplo). Contudo, o que parece fazer falta neste novo cenário é justamente a pró-atividade da administração que marcou o início dos Convites. As reformas dos teatros municipais se arrastam. Há 3 anos não se vê a abertura de um edital da Lei de Incentivo à Cultura. O descompasso parece ser reconhecido também pela própria Secretária de Cultura, Flor Duarte, que na abertura da Mostra, reconhece como heróis os organizadores do evento. E de fato, a I Mostra de Teatro Contemporâneo tem envergadura heróica. No entanto, se as sagas heróicas já deixaram de ser o mote da dramaturgia contemporânea – como a própria Mostra destacou – porque iríamos querer uma política feita de iniciativas mirabolantes? Mais que heroísmo, queremos compromisso e consistência.
A Mostra expõe com clareza aquilo que já se insinuava: as artes cênicas em Maringá estão à frente das políticas de fomento cultural da cidade. Para os interessados em teatro, a Mostra foi um indicativo positivo de uma efervescente mobilização que ganha cada vez mais corpo e potência. Para os interessados em políticas de fomento à cultura, a Mostra alerta para uma insuficiência e para a necessidade de um posicionamento mais ativo e corajoso por parte da administração pública.