Inscrições abertas para o Simpósio Internacional Teatro e Transformação Social
COnheça o site do evento: http://teatroesociedade.blogspot.com
Lições de casa
(três coisas que aprendi com meu pai sobre a atividade docente)
É uma coincidência interessante e feliz que no mesmo ano em que meu pai se aposenta de sua carreira docente, eu e meu irmão nos preparamos para iniciar nossas atividades de ensino nesta mesma instituição. Sem dúvida, se a carreira acadêmica é hoje para nós uma possibilidade atrativa na construção de nossas identidades profissionais, sua configuração enquanto tal foi desenhada com aquilo que aprendemos na sombra da trajetória percorrida por meu pai. Enquanto professores iniciantes olhamos para esta trajetória à procura de modelos que nos sejam úteis e que nos ajudem a construir em nós aquilo que vemos a admiramos nele. Do conjunto de ensinamentos que carregamos destaco três.
Em primeiro lugar, meu pai me ensinou que colocar o interesse dos outros antes de si mesmo não é apenas um princípio relacional revolucionário como também é uma postura que oferece a possibilidade de uma resposta ética a um modo de relacionamento profissional que cada vez mais valoriza o individualismo e a competitividade. Nas ajudas que prestou aos colegas, nos fins de semanas que dedicou a seus orientandos, na disposição quase irrestrita às necessidades dos alunos, meu pai ofereceu sem cobrar e semeou sem esperar pela colheita. Enquanto jovem professor, isto é importante para mim porque vivo intensamente as pressões institucionais e culturais que fazem da vida acadêmica um corrida individual. Uma corrida medida em passos de publicações e velocidade de financiamentos na qual colegas de trabalho facilmente se convertem em competidores.
Em segundo lugar, meu pai me ensinou que o salário que recebemos jamais corresponde a uma compensação equivalente ao valor de nosso trabalho. Ainda que o salário de professores não estivesse defasado, seu valor justo seria apenas uma compensação parcial. Isto porque a atividade de formação a qual o professor se dedica não se efetiva como uma mera venda de serviços. Ela emerge do encontro humano no qual para além da troca de informações e conhecimentos, o professor se abre para habitar com o outro um espaço de existência. Este espaço se configurou no exemplo de meu pai como uma oferta que ele pôde fazer de si, uma abertura as possibilidades e desejos de crescimento de seus alunos no qual mais que uma nota, aprovação ou diploma, ele empenhava-se em costurar com eles um vir-a-ser profissional. Isto é importante para mim porque vivo em uma época na qual o ensino tende a ser visto como mais uma mercadoria. Uma época em que o mercado multiplica a ilusão de que um diploma é um produto, um professor é um prestador de serviços, um aluno é um cliente e uma universidade é uma empresa. A exemplo de meu pai quero investir em uma prática docente que não cabe na embalagem de nenhum produto, tampouco se presta ao governo das desumanas leis do mercado. É justamente para falar desta prática que não tem preço que usamos palavras que o mercado desconhece como gratidão e generosidade.
Finalmente, meu pai me ensinou que embora difícil, é possível manter o interesse, empenho e paixão pelo trabalho mesmo em face do empobrecimento das condições de trabalho, do sucateamento da instituição pública e do desprezo e má vontade política. O empenho e diligência constante que vi no trabalho de meu pai serviu-me como exemplo de que o apreço pelo próprio trabalho não pode ser racionalizado. Exemplo de um homem que jamais economizou a porção de coração empregada no trabalho das mãos. Isto para mim é importante porque sou de uma geração apressada, impaciente e muitas vezes superficial. Isto me ajuda a dar valor para o capricho empregado em cada gesto, ao cuidado do artífice, a dedicação de quem entende que fazer não basta, é preciso fazer bem feito. Exigir de si mesmo o melhor quando aos outros o mínimo poderia bastar foi o protesto poderoso de um homem que se recusou a banalizar o próprio trabalho e com isso sustentou a atividade docente em seu lugar de apreço, orgulho e respeito.
Pai, eu e meus futuros alunos te agradecemos.
// Em 14 de dezembro de 2011 Ismar S. Moscheta aposentou-se como professor do Departamento de Biologia da Universidade Estadual de Maringá após 34 anos de dedicação à formação de inúmeros alunos de graduação e pós-graduação.
Mateus Moscheta é ator, diretor de teatro e professor do recém criado curso de artes cênicas da Universidade Estadual de Maringá desde fevereiro de 2011.
Murilo Moscheta é psicólogo, doutor de psicologia e aguarda nomeação para iniciar suas atividades docentes no Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá. //
Sobre partidas, chegadas e trajetos
Em toda parte já posso ver a movimentação típica de fim de ano. As festas convocam-me para seus rituais religiosos, comerciais e reflexivos. Embarco naquele que me convém.
A idéia de fim que impregna a segunda quinzena de dezembro me convida a reflexões que vagueiam em sentidos opostos e complementares. Assim lanço-me em retrospectivas e projetos.
No sentido retrospectivo, visito minhas memórias e coleciono os emblemas daquilo que para mim foi especial. Como um filme que revejo, o passado parece pronto, editado e bem-acabado. Assisto-me como uma personagem definida atravessando um enredo já conhecido. Percebo então o risco: da linguagem que uso para falar de minhas experiências parece emergir uma descrição de quem eu sou que não contempla quem eu estou me tornando. E para mim isto é um risco pois identifico a desesperança que impera quando minhas descrições de mim e da vida não incluem os vazios e incompletudes que constantemente me colocam em movimento. Falar do passado pode, muitas vezes, favorecer uma narrativa na qual me relaciono com as pessoas, com minhas escolhas, com a vida, como se fossem, e esqueço de incluir a percepção daquilo que estão se tornando. E aquilo que estamos nos tornando é muitas vezes o aspecto mais importante daquilo que somos.
Mas o fim de ano é também um convite para olhar para o futuro. No embalo das listas de presentes, faço também um lista de conquistas, aquisições, projetos e metas que gostaria de ver realizados no próximo ano. E novamente um risco se insinua aqui. Desta vez o risco refere-se a possibilidade de confundir o processo de tornar-se com a aquisição de um marco identitário. Por exemplo, tornar-se médico, enfermeiro ou psicólogo é um processo que se estende para muito além da mera aquisição do diploma que marca o encerramento de um curso superior. De mesma forma, ter um relacionamento (com todo o peso que esta palavra possa ter) é um empreendimento que não se confunde com um namoro ou casamento. Ser pai não é o mesmo que ter um filho. A diferença está no modo como nos engajamos nessas tarefas: de um lado um investimento incessante na criação do que queremos ser, de outro o consumo apressado de “produtos” que nos acenam com a possibilidade de ser sem se tornar. Falo da distinção entre produto e processo, tão cara as formulações marxistas sobre a alienação. No sentido da construção da identidade, alienar-se é relacionar-se com as próprias escolhas (e desejos) como pontos fixos.
Escolhas são pontos de partida e não pontos de chegada. Escolhemos de onde começamos (e estamos sempre no começo, até mesmo quando chegamos ao fim) mas não podemos prever onde chegaremos. Decidimos para onde vamos e chegamos, geralmente, em algum outro lugar.
O perigo de nos relacionarmos com as escolhas como se fossem pontos de chegada, e não de partida, é deixarmos de nos ver como autores da história que estamos construindo e perdermos a perspectiva criativa. Na “lógica da chegada” as escolhas ganham um caráter definitivo. Viram produtos na prateleira da existência. O tempo e o percurso do eu-atual até o eu-desejado fica encurtado e ignorado. Quando o destino passa a valer mais que o trajeto a viagem perde a graça – ela é apenas tempo e espaço que nos separa de nosso desejo. Todo horizonte fica reduzido a este grão de sonho.
Resistir a uma apreciação do passado ou projeção de futuro alienante significa para mim manter viva a percepção e a responsabilidade por quem estou me tornando. Neste sentido esta resistência ganha a dimensão criativa de sempre reinventar aquilo que entendo como minha identidade. Além disso, sou desafiado a considerar o modo como invisto no processo de construção daquilo que quero ser, me lembrando sempre que embora formado há 10 anos, ainda não deixei de construir o psicólogo que quero ser; embora vivendo em um relacionamento há 7 anos, ainda preciso me esforçar em tornar-me o companheiro que gostaria de ser e embora nascido há 33 anos, guardo em mim possibilidades de nascer como outro, reinventado, sempre…
///Este texto é uma adptação do texto “Psicólogo ou artista? Um convite para a reflexão sobre os desafios de criar a identidade profissional.” Para acessar o texto completo use o link abaixo:///
psicólogo ou artista?
A calcinha da Gisele e o sutiã das feministas
1. Mulheres dirigem mal,
2. São consumistas,
3. Compensam suas falhas oferecendo seu corpo ao consumo dos homens,
4. E são tolas o suficiente para continuar comprando lingerie Hope – uma marca que acredita que pode ampliar suas vendas abusando dos três estereótipos acima.
A recente campanha publicitária da marca, intitulada “Hope ensina” apresenta Gisele Bündchen anunciando a um suposto marido que bateu o carro ou estourou o limite do cartão de crédito. Na primeira cena, ela dá a noticia vestida, com cara trágica e acompanhada de um carimbo “errado”. A segunda cena é semelhante, porém Gisele está apenas de calcinha e sutiã e acompanhada do carimbo “certo”. A lição da cartilha publicitária é bem simples: embalagem é tudo!
Em um protesto que marcou a história do movimento feminista no final da década de 60, um grupo de mulheres norte-americanas invadiu um concurso de “Miss América” em Atlantic City. Em uma lata de lixo elas jogaram sutiãs e outras peças do vestuário feminino e convocaram mulheres a enfrentar o imperialismo dos valores patriarcais. O que estava em questão era delimitar uma oposição clara a um modo de olhar para as mulheres que as reduzia ao seu sexo e que delimitava seu lugar social à sombra e a serviço do homem. Desde então, lutamos para criar um cenário de relações entre gênero no qual o certo e o errado são bastante distintos da obtusa lição que Hope quer ensinar.
O retrocesso desta campanha publicitária está em fazer o movimento oposto àquele que as feministas iniciaram. O concurso de Miss é retomado na figura da ilustre modelo internacional. A lingerie, ícone que desde o espartilho representou a opressão do olhar masculino sobre o corpo feminino é resignificado. Agora ela deve ser considerada um atributo a ser apropriado pelas mulheres enquanto recurso persuasivo, estratégia de controle, artimanha de dominação sobre os homens.
Há inclusive aqueles que advogam pela apropriação das mulheres daquilo que chamam de “capital erótico”. Para a escritora inglesa Catherine Hakin, autora do livro “Honey Money – the power of erotic capital” o capital erótico é uma mistura de beleza, atratividade e sociabilidade que, se bem utilizado pelas mulheres, pode favorecer sua ascensão e competitividade no mercado de trabalho. E aqui vale a pena fazer uma distinção importante: se o protesto feminista almejava uma libertação para todas as mulheres, o capital erótico é bem seletivo em suas promessas de libertação. Ficam excluídas as feias, obesas, e todas aquelas que se distanciarem muito do modelo Gisele.
Discordar da teoria do capital erótico não significa negar a importância da beleza e da atratividade sexual. Significa se opor ao modelo que coloca nestes atributos a possibilidade de superação de uma desigualdade, justamente porque cria uma nova ordem de injustiça ao privilegiar aqueles que eufemisticamente qualificamos como “com boa aparência”. Eu prefiro um mundo no qual a mulher, bonita ou feia, é suficientemente capaz de dirigir seu próprio carro e de pagar pelas contas que faz. Prefiro um mundo no qual os homens não são bestas dominadas por seus hormônios, por seus fetiches automobilísticos ou sua obsessão financeira – pois são estes os estereótipos masculinos complementares implícitos na campanha.
Contudo se você mulher acredita no mundo que a Hope ensina e quer ir correndo comprar uma nova lingerie, sugiro que vá de ônibus e pague a vista. E se você homem quiser presentear sua companheira com um produto desta marca, sugiro que além da calcinha, compre também o manequim. Se o que você mais preza é a embalagem, você praticamente não sentirá a diferença.
Vida de plástico
Olhe ao seu redor. Quanto plástico você vê? Olhe para si. Quanta vida você vê?
O plástico, em suas diferentes formas, é um produto sintético, criado pelo homem e aplicado na fabricação de muito daquilo que compõe nossa vida. Ele está nos edifícios, nas embalagens, nas roupas, no carro, nos livros, na garrafa de refrigerante, na sacola de supermercado, no lixo e no próprio saco de lixo. Como produto sintético, ele é metáfora para tudo aquilo que é artificial, postiço, falso e sem vida. Contudo, sua versatilidade é também metáfora para aquilo que é adaptável, múltiplo e dinâmico. Ele é deste modo, um produto artificial que mimetiza a pluralidade da vida.
Jogando no limiar entre o artificial e o natural, a instalação “Plástico Orgânico” das artistas Roberta Stubs, Odille Mazzeto, Rislene Risse e Annelise Fonseca, propõe ao visitante uma experiência de reflexão sobre a plasticidade da vida. Feita inteiramente de produtos plásticos a instalação se assemelha, à primeira vista, a um grande saco de lixo. É neste saco que o visitante irá entrar e será convidado a acordar seu corpo, pele e músculos para diferentes sensações. A interrogação das artistas parece se direcionar à artificialidade que pode se instalar em nós quando nos desconectamos da materialidade do corpo e da premência do momento presente. O que temos lançado ao lixo com nosso modo de viver contemporâneo? O que em nós tem se enrijecido e calcificado, perdendo a capacidade de se transformar no ritmo das contínuas reinvenções da vida?
A exposição está localizada no saguão da Biblioteca Central da UEM e permanece aberta a visitas até 02 de outubro, todos os dias, a partir das 14 horas.
A cena do descompasso: duas considerações a partir da I Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá
A I Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá que se encerrou neste domingo, convida a duas considerações importantes sobre o contexto das artes cênicas na cidade. A primeira delas diz respeito à atual força de renovação deste campo cultural e a segunda denuncia a dificuldade da administração pública em acompanhar este movimento.
A realização bem sucedida da Mostra é, em parte, resultado do amadurecimento e capacidade de articulação e organização de grupos e pessoas historicamente envolvidas com o teatro de Maringá. A lista extensa de empresas e instituições que apoiaram a Mostra indica o número de agentes que necessitam ser mobilizados para que um evento deste porte se viabilize. O conjunto de peças apresentadas sugere a capacidade de comunicação da organização do evento com grupos de teatro consagrados, e o público que lotou quase todas as apresentações atesta o quanto este tipo de iniciativa responde aos interesses de uma população cada vez mais interessada em arte.
A força deste momento não é um fenômeno isolado. Desde o início do ano, Maringá teve pelo menos uma peça de teatro em cartaz em quase todos os finais de semana (para além das tradicionais apresentações no programa Convite ao Teatro). A Universidade Estadual de Maringá, passou a oferecer neste ano o curso de licenciatura em artes cênicas, trazendo para a cidade um contingente de alunos e professores que fortalece o movimento artístico da região. A mesma instituição organizou o Festival Maio no Palco e já prepara a Mostra de Teatro Universitário para outubro. Ainda este ano acontece a quinta edição do Festival de Teatro de Bonecos. A peça “O Guarani: o amor de Peri e Ceci” da companhia Circo Teatro Sem-Lona acaba de receber o prêmio de melhor ator coadjuvante e o segundo lugar de melhor peça no festival de teatro de Limeira. O espetáculo “A Visita da Velha Senhora”, produzido pelo Teatro Universitário de Maringá, foi uma das 18 peças selecionadas para participar do Festival Nacional de Teatro Universitário de Patos de Minas. Neste cenário, a I Mostra de Teatro Contemporâneo, amplia as reverberações desta renovação, destacando-se sobretudo pelo arrojo na composição do programa com excelentes apresentações e no alcance que supera as fronteiras do contexto universitário.
Em descompasso com este movimento, a administração pública parece se limitar a oferecer o Convite ao Teatro, à Dança e à Música. No momento em que foram lançados, os Convites representavam uma importante contribuição à cidade na medida em que garantiam uma programação cultural de qualidade, gratuita e constante. Pode-se inclusive, considerar que a atual potência das artes cênicas em Maringá é de certo modo tributária desta iniciativa. Também é necessário dizer que a Prefeitura Municipal de Maringá é uma das parceiras na organização da Mostra, embora a concretude desta parceria pareça um tanto obscura (nenhum evento foi realizado em espaço público municipal, por exemplo). Contudo, o que parece fazer falta neste novo cenário é justamente a pró-atividade da administração que marcou o início dos Convites. As reformas dos teatros municipais se arrastam. Há 3 anos não se vê a abertura de um edital da Lei de Incentivo à Cultura. O descompasso parece ser reconhecido também pela própria Secretária de Cultura, Flor Duarte, que na abertura da Mostra, reconhece como heróis os organizadores do evento. E de fato, a I Mostra de Teatro Contemporâneo tem envergadura heróica. No entanto, se as sagas heróicas já deixaram de ser o mote da dramaturgia contemporânea – como a própria Mostra destacou – porque iríamos querer uma política feita de iniciativas mirabolantes? Mais que heroísmo, queremos compromisso e consistência.
A Mostra expõe com clareza aquilo que já se insinuava: as artes cênicas em Maringá estão à frente das políticas de fomento cultural da cidade. Para os interessados em teatro, a Mostra foi um indicativo positivo de uma efervescente mobilização que ganha cada vez mais corpo e potência. Para os interessados em políticas de fomento à cultura, a Mostra alerta para uma insuficiência e para a necessidade de um posicionamento mais ativo e corajoso por parte da administração pública.
A Ópera da Palavra Viva
A peça “Ópera dos Vivos – Estudo em 4 atos”, foi apresentada ontem em Maringá pela premiada Companhia do Latão (São Paulo) dentro da programação da I Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá. A apresentação de quase duas horas, contemplou apenas o primeiro ato e emocionou a platéia que ocupou todas as poltronas (e espaços vagos) do Teatro Oficina da UEM.
Construída no entrecruzamento de imagens, simbolismos e diferentes linhas narrativas, a Ópera condensa múltiplos sentidos, e como um coro polifônico, multiplica seus temas e destinatários. Ela fala, por exemplo, do contexto histórico-social dos anos que antecedem o golpe militar no Brasil, ao insinuar a mudança de tutela que operou por meio da substituição do pai de família pelo proprietário de terras, e deste pelos generais. Fala também da necessidade de se fazer frente ao instituído-opressor, e da retomada de uma relação criativa e política com trabalho. E aponta para o caráter essencialmente coletivo desta retomada, reverberando com o pensamento de Paulo Freire segundo o qual “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho; os homens se libertam em comunhão.” Dialoga, portanto com o trabalho de intelectuais (como Freire) e artistas (como àqueles ligados ao Centro Popular de Cultura – CPC) que nas décadas de 60 e 70 apostaram em possibilidades de transformar as relações sociais produtoras de desigualdades.
Concebida enquanto um estudo, as questões que norteiam a construção da Ópera, segundo seu diretor, procuram investigar como as relações de trabalho afetam o modo de produzir teatro e cultura, sobretudo em contextos nitidamente marcados pelo predomínio da lógica do consumo. Neste sentido, a peça é atravessada por um fio que salienta a o valor dialético da palavra: ao mesmo tempo um produto cultural e uma ferramenta simbólica que transforma o mundo. É pela palavra que uma das personagens irá produzir sentido sobre seu mundo em encarnações personalizadas de ditos populares. É pela alfabetização que outra personagem irá descobrir que ler é usar dos olhos para “fazer as palavras falarem”. É na carta de uma mãe, que palavras se formarão em um chamamento, convocando filhos a se tornarem autores de suas histórias.
O conflito de classes apresentado pela peça é uma denúncia, se tomado no pano de fundo de 2011, quando as disputas políticas parecem ter sido absorvidas pela lógica de mercado neo-liberal. Ela denuncia o esvaziamento contemporâneo do valor da política e das organizações coletivas. Ela alinha a alienação do trabalhador oprimido com a atual massificação do espectador hipnotizado pelos produtos televisivos. Ela sugere que lógica do consumo se articula à arte produzindo uma experiência que prioriza o impacto emocional e estético em detrimento do engajamento crítico. E ao retomar uma dramaturgia que não abre mão de seu conteúdo, ela sugere que a paixão formalista no teatro contemporâneo pode ser equivalente à construção mercadológica de atraentes embalagens vazias. Retomar o conteúdo é reinvestir a palavra. Reinvesti-la significa refazer seus laços com o mundo, com o coletivo que a produz e sustenta, e com os ideais aos quais nos dirigimos. É esta palavra viva e encarnada em ato que nos transforma.
Disponibilidade de conexão e a arte da relação
… vou começar um blog. Enquanto eu procuro pelas idéias que poderiam se amarrar em um texto, o mundo parece não suspender sua barulhenta malha de conexões. Enquanto eu demoro, balançando no tempo de minha indecisão, meu telefone celular treme me avisando de mais uma mensagem. Meu computador apita, sinalizando outro email que chega. No msn um amigo de longe me chama. No ‘facebook’ alguém comenta sobre um comentário meu. No ‘skype’ chamadas gritam pela minha atenção. E antes que eu pudesse escrever a primeira palavra, uma mão me toca o ombro e me pergunta se não vou descer para o jantar. Lá embaixo, uma família de tradições barulhentas come e bebe o calor de seus afetos. Em meio a todos os convites de conexões pergunto-me a qual desejo responder afirmativamente iniciando com isto a possibilidade de uma relação. No vão que separa conexão de relação inauguro uma pausa e uma pergunta: qual a diferença entre uma e outra afinal? Ocorre-me que a conexão é condição para uma relação. Neste sentido, somos com certeza, beneficiários da elasticidade de conexões que o desenvolvimento tecnológico nos oferece. Mas a relação é produto de uma arte que demanda mais que estar junto ou “online”. Neste ponto, tenho menos segurança em apontar os prodígios de nosso desenvolvimento. Confundir “arte da relação” com “disponibilidade para conexão” me parece um empobrecimento do potencial humano. De modo semelhante, acreditar que a tecnologia se opõe aos relacionamentos é um equívoco constrangedor. Em algum ponto, conexão e relação devem se encontrar, possibilitando uma articulação criativa entre a tecnologia que nos torna acessíveis e a arte que nos faz presentes. Agradeço a mão que me toca o ombro e descemos para jantar. Contudo, logo retorno ao meu computador… agora eu encontrei uma idéia e … vou começar um blog.

