Roupa sem costura

Há exatamente 1 ano, escrevia sobre a comemoração dos novos anos de Maringá. E infelizmente, como naquela data, o tom não será festivo. Ontem, dia 14, quer dizer, na última quinta-feira, dia 10, a cidade completou 65 anos de fundação. O tradicional desfile cívico, desde o ano passado, é comemorado no período da noite e na mais remota e central avenida da cidade, a Horácio Racanello. Além disso, passou a ser temático, recebendo carros alegóricos, bailarinos e até composição musical própria. O tema desse ano, seguindo um bom discurso de economia hegemônica, foi “Maringá fazendo moda”, em referência ao grande pólo têxtil da cidade (?).

O desfile começou pontualmente às 18hr, depois da chegada do governador Beto Richa e sua comitiva de carros blindados. Como de costume, a bancada política estava meticulosamente presente: o primeiro secretário da câmara de vereadores, Heine Macieira (representando o oculto presidente da câmara, Mário Hossokawa), o deputado estadual e futuro candidato da oposição à prefeitura da cidade, Enio Verri, e o prefeito em exercício, Roberto Pupin. Esse último, empossado no começo do mês devido à aprovação do pedido de licença do prefeito, era constantemente evocado como “o prefeito Roberto Pupin”. Inquestionável a genialidade da manobra: fazer campanha eleitoral muito antes de a campanha eleitoral começar.

Como manda a tradição, a primeira ala foi destinada aos militares do tiro de guerra, seguido do comando policial e corpo de bombeiros. A banda militar encarregava-se de dar o tom da marcha, apesar de ouvirem-se ao longe alguns ruídos vindos das caixas de som. Após o desfile militar, como se houvesse uma cisão, o locutor anuncia com ânimo florescente que o governador entregaria um presente à cidade: a chave do novo caminhão anti-incêndio para o aeroporto. Então, o governador e o prefeito em exercício desceram da bancada (seguidos de uma barba de políticos e jornalistas) e se posicionaram ao centro da avenida para a entrega da chave, isso mesmo, uma solenidade dentro da solenidade. Depois de um breve discurso de Richa e Pupin e saudações aos eleitores presentes, a banda oficial do desfile executa seus primeiros acordes, acompanhando a entrada das alas temáticas. Bailarinos, acrobatas, pernas de pau e dançarinos encenam a produção da moda na cidade (ou seria da região?).

Desfile cívico em comemoração aos 65 anos da cidade de Maringá – Foto: Adriano Gatto


Como no desfile de 2011, a ala temática é imponente, grandiosa em tamanho e beleza. Fato esse incontestável. Carros alegóricos representando as estações do ano e seus respectivos vestuários, bolhas de sabão, fumaça com cheiro de flores, cavalo de isopor com colar de brilhantes falsos. Tão fascinante que era impossível parar a atenção dos olhos para aplaudir. Quando o último caminhão da ala temática passou, a trilha sonora oficial do desfile repentinamente para e a avenida fica vazia. O locutor engancha rapidamente um lembrete, que o desfile não havia terminado. O que antes era um som ruidoso nas caixas de som se torna agora batidas frenéticas de tecnogay. Era a outra fatia do desfile que minguava nos bravos representantes das escolas municipais e outras entidades públicas e privadas da cidade. O volume do som oscilava nos momentos em que o locutor falava, e somente nesses. Nem quando a banda da APAE desfilou alinhadamente seus instrumentos de sopro e bateria Madonna e Jennifer Lopez deram trégua. Os escoteiros tiveram que se concentrar para marchar ao som de “Banho de Lua” remixada.

Mas como no desfile do ano anterior, o verdadeiro valor cívico do desfile estava na identificação do público com as instituições mais populares e simples, como o grupo de carros antigos e o grupo folclórico português. No momento em que o Opala passava ou que as saias, lenços e brincos portugueses desfilavam, era como se o passado real da cidade se conjugasse com o momento atual, havia a história sensível ali. Ou seja, os recursos que a secretária de cultura, Flor Duarte, tão incansavelmente angariou e aplicou nos grupos de balé, dança e teatro não foram o bastante para ofuscar a história e certo brilho particular de quem desfilou pela simples manutenção da memória coletiva.

É certo que uma comemoração cívica não é lugar para tratar de sentimentalismo coletivo, mas também não é lugar para tratar de conchavos partidários. Como disse há um ano, a comemoração é dos cidadãos, se trata de um direito público, não de um favor político. O desrespeito ao bem cultural da cidade é tão nefasto e devastador quanto qualquer atitude corrupta e incauta dos políticos.

Nota comum do XXI

Pânico generalizado foi o que ocorreu ontem (25) na rede mundial de computadores, principalmente pelos usuários da região sul do Brasil. Problemas com a estrutura física da rede de algumas operadoras fizeram com que os serviços de telefonia e internet ficassem comprometidos por algumas horas da tarde. O mais impressionante nessa história foi o pavor gerado por usuários impossibilitados de se conectarem. Só pelo site Tecnoblog, foram mais de quatro mil usuários abalados compartilhando a notícia.

Imagino o medo deles no momento em que se viram desprotegidos, desabrigados, ciberórfãos. Parece que o medo maior não era a impossibilidade de interação, tão pouco a de comunicação, mas simplesmente a sensação de estarem desconectados. Já se tornou clichê dizer que a geração nascida concomitante à internet não consegue se desligar. Clichês são sempre verdades tornadas absolutas. Estudiosos enchem as revistas científicas de teses acerca do impacto que essa necessidade virtual gerou nessa geração, porém, é leviana qualquer afirmação extrema sobre o assunto. Claro que esse caráter de conexão permanente gerou uma ansiedade crônica, logo, afetou a profundidade das análises e leituras. Porém, possibilitou maior acesso a outras análises e leituras, é fato. Assim, a questão fundamental é entender como essa “nova” relação de indivíduo-rede, que nem é mais uma relação, mas sim um cadeado, se constrói.

O que aqueles usuários queriam não era compartilhar notícias no Facebook, tão pouco tuitar a tediosa tarde pela qual passavam. Queriam continuar com a acalentadora sensação de pertencerem a uma rede na qual todos os veem ininterruptamente, como em uma janela que nunca se fecha. Ali, há uma existência dependente que, por ambos os lados, é conivente. A tal rede de internet não é mais um meio, mas um membro, sem o qual não há existência plena. Ora, se por pouco mais de duas horas de desconexão houve tanta comoção, imagine (é quase inimaginável) ficar por alguns dias acampados sem conexão wi-fi.

Por um lado, o internauta recebe os louros de ser independente e autossuficiente, por outro, é dependente das fibras ópticas e dos velhos técnicos de telecomunicações.

A suspensão do Carnaval

No próximo dia 25, a morte de Caio Fernando Abreu completará 16 anos. Com o Facebook, descobriu-se um autor de aforismos belíssimos. Compensaria agora descobrir um Caio Fernando Abreu autor de obras literárias importantes para a configuração da literatura brasileira.

Minha experiência com Caio Fernando Abreu passou por todas as etapas de descobrimento de um “novo” autor: desconhecimento, negação, estranheza, degustação. Talvez seja pelo fato de ainda não haver a digestão é que me impressiono com ele.

No conto Terça-Feira Gorda, um dos 18 do livro Morangos Mofados (1982), Caio Fernando Abreu denuncia o absurdo da intolerância na festa da tolerância. É na dita terça-feira gorda que os foliões festejam e exteriorizam seus desejos humanos, pois passarão, segundo os preceitos cristãos, por 40 dias de penitência (quaresma). No conto, dois homens se encontram em uma dessas festas e começam a flertar. Seguem quatro parágrafos de descrição dessa aproximação. Uma aproximação de corpos, de pelos, de músculos, de suores, de hálitos, como os bailes de carnaval devem ser. Para ambos, a compreensão de carnaval é a liberação de seus desejos, não importando a quem esses desejos se dirijam, como o narrador-personagem confessa: “eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”.

Uma vez que essa liberalidade se faz, pequenas vozes, quase sussurros, aparecem na narrativa. São os outros foliões que, incomodados com o flerte dos dois homens, dizem em falsete: “ai-ai, olha as loucas”. Empurrões e gritos obrigam o casal a sair do salão. Refugiam-se na praia, símbolo de equilíbrio e confiabilidade. Ali, deitados na areia e sem roupas, vivem a experiência do carnaval. Aliás, o caráter carnal e casual da festa é insistentemente exposto pelo narrador: “Foi então que percebi que não usávamos máscara”; “Não vou perguntar teu nome, nem tua idade, teu telefone, teu signo ou endereço [...] O que você mentir eu acredito”. Esse cenário romântico-erótico é brutalmente rompido pelos dois últimos parágrafos nos quais os dois são surpreendidos por um grupo de “outros homens” que os violentam com chutes e socos. É nesse momento que percebemos a contradição citada acima: a festa do carnaval, representação quase máxima dos despudores, incompatível com a intolerância expressa dos homens furiosos que violentam o casal. O espírito de violência que encerra o conto faz com que a experiência festiva da carne se reconfigure facilmente para o sentimento de amor. Depois do ponto final, nas linhas não escritas, está escrito que o amor é o figo, flor que abre pra dentro. Que é a metade do corpo de um sendo a metade perdida do outro. Que são as dores e as alegrias sem máscaras.

Já que é carnaval, proponho uma marchinha com o refrão: “Plâncton é um bicho que brilha quando faz amor. E brilhamos”.

O nutrir da ficção

Nunca tive paciência para acompanhar séries de TV. A ideia de ter muitos episódios pela frente (e continuar tendo) me agoniza. Mas quando alguma série me fascina, abro exceção. Foi o que aconteceu com Tudo o que é sólido pode derreter, transmitida pela TV Cultura em 2009.

Achei-a por acaso, na fecunda confusão do Google. Pesquisava sobre o livro Tudo que é sólido desmancha no ar de Marshall Berman. Além de descobrir que essa é uma expressão contida no Manifesto Comunista de Marx e Engels, descobri também que havia um seriado com um nome genérico. Atiçou-me a curiosidade e, já que estava no Google, fui pesquisar.

"Tudo o que é sólido pode derreter" (TV Cultura/2009)

Tratava-se de um seriado concebido e dirigido por Rafael Gomes e Esmir Filho, baseado no curta-metragem homônimo de Rafael Gomes (o mesmo de Tapa na Pantera). A série é uma viagem ao mundo de Thereza, uma adolescente que narra suas experiências e visões sobre o mundo novo em que passa a habitar depois da morte de seu tio, Augusto. As aflições, dúvidas e incertezas típicas da adolescência são costuradas em obras literárias de língua portuguesa. A cada episódio, uma obra diferente. Muito simples: Thereza encontra na trama dos livros uma veia que parece sair de si mesma.

Não é o caso de dizer que os episódios são baseados em livros, nem que as obras literárias servem de pano de fundo para o dia-a-dia de Thereza. A história da personagem não depende das obras para acontecer, mas as obras precisam da história de Thereza. Claro que a existência da literatura é autônoma. Como em toda obra de arte, ela simplesmente existe. Mas em Tudo o que é sólido o foco está no leitor (Thereza), eis o ponto chave da série. Nela, o leitor denuncia o real da ficção.

A ideia de uma obra literária ter vida desagrada muitos leitores patológicos. Pensar que uma poesia, por exemplo, foi concebida para simplesmente ser admirada é um grande engano. Perceber a arte é fazer criá-la, dizia Octávio Paz, ou como bem diz Rodrigo S. M., “não se trata apenas de narrativa, é antes de tudo vida primária que respira, respira, respira”. Há um argumento do capitalismo de consumo que reza que tudo há de ter motivo, objetivo e alguma utilidade, inclusive na arte. Surge, logicamente, o contra-argumento que promove uma relação menos pecúnia e mais livre com o mundo. Concordo sem ressalvas. Porém, não devemos usar esse contra-argumento para argumentar a despretensão perante a arte, atitude comum hoje. Uma tela, uma canção, uma escultura, um livro, uma fotografia possuem suas motivações e alcançam de infinitas formas àqueles que os acessam. Arte não nasce para ficar parada, imóvel em prateleiras, galerias, álbuns e discos. Arte não possui lógica, mas tem utilidade (falta de utilidade na arte é uma utilidade). Não se trata da utilidade prática, como rezam os capitalistas de consumo, mas uma utilidade única, particular, um canal que vai da obra para o indivíduo, diretamente.

Thereza e Aurélia Camargo na gravação do episódio "Senhora".

Esse caráter orgânico de Tudo o que é sólido pode ser visto também no filme O Clube de Leitura de Jane Austen de 2007. Nele, os personagens encontram, na leitura de Jane Austen, um eco de vida que “respira”, um fiapo de descoberta de si mesmos. Lembro-me de uma cena emblemática, na qual Prudie está parada em frente a um semáforo, prestes a entrar no carro de seu provável amante, quando aparecem as palavras no semáforo: “what-would-Jane-do”, algo como: “o que Jane faria?”. Eu permutaria: “o que a criação de Jane faria?”. Não se trata de inventar a vida em função da arte, tão pouco imitar a arte na vida. É, antes de tudo, aprender a ver a arte como vida, como produto dela. Arte é, conceitualmente, desenho do real, uma linguagem que está subordinada à vida. Como diz Lya Luft, “a vida é mais importante do que a literatura”.

Thereza, como adolescente que é, tem uma postura madura ante a literatura. Com muito mais perguntas do que respostas, ela vai tecendo o próprio cotidiano na companhia de Clarice Lispector, do diabo da Barca, de Ismália endoidada, de Camões e, é claro, de seu tio, Augusto, com o objetivo de desamarrar os nós triviais, sair de labirintos diários para, quem sabe, encontrar respostas. Mesmo que essas respostas sejam seguidas de interrogações ou reticências. Não à toa, a falta de unidade representada em Macunaíma foi um dos motins do episódio que fecha a primeira e última temporada da série.

No ano passado, Rafael Gomes lançou a versão literária da série. São mais de 450 páginas narrando a epopéia de Thereza. Estava previsto, também para o ano passado, a segunda temporada, que nunca foi exibida. Os 13 episódios da primeira temporada podem ser vistos, integralmente, no site da série.

É só mudar a estação

No pouco tempo em que escrevo nesse blog, a música foi um dos multiplicadores comuns. Nada mais justo que no último post do ano, o mote também seja música. Mote, pois não pretendo julgar o fato música, mas partir dele para outra discussão. Essa explicação vale o parágrafo pelo meu despropósito crônico em dividir o bom do ruim, o feio do belo, o certo do errado e o possível do impossível (não que não existam, mas é questão de recorte).

Dizer que 2011 foi o ano de Michel Teló já virou clichê, mas é fato. O cantor conseguiu atingir números incríveis nesse ano: Ai se eu te pego foi o clipe musical brasileiro mais acessado do YouTube até hoje (mais de 95 milhões de visualizações); ficou à frente de Adele, Rihanna, David Guetta e Lady Gaga nas rádios de Portugal, Espanha e Itália; foi comparado a Carmem Miranda pela revista norte americana Forbes; a coreografia de sua música foi executada pelo meio campo do Real Madrid, Cristiano Ronaldo. Sucesso popular incontestável. E como tudo que leva a alcunha de popular e vendável, o sucesso de Teló encontra seus adversários.

Inúmeras críticas são feitas ao cantor paranaense, mas a que vou me ater aqui é a da homogeneização cultural, ou o que se entende por isso hoje. Adorno e Horkheimer diziam que toda produção da indústria cultural tenderia a um propósito: alienação. A televisão e o cinema, meios de comunicação em ascensão na época dos filósofos, seriam os responsáveis pela manutenção dessa indústria. Hoje, podemos dizer que a internet faz as graças alienantes. Ou seja, os meios de comunicação em massa colocariam Michel Teló em nossa goela e nos obrigariam a engoli-lo. Mas será que essa indústria controla e nivela a produção e o consumo da arte? Há um nivelamento cultural acontecendo? O cantor conseguiu atingir o sucesso com um gênero tipicamente brasileiro, o sertanejo universitário. Dentro dele, há aspectos comuns como os temas, o ritmo, o vestuário, a ideologia, nada que difere de qualquer outro gênero musical. Toda música nivela a si mesma. Existir um gênero musical dominante (moda) não quer dizer que ele seja o único, muito menos que ele nivela os outros às suas próprias características. Existir o sertanejo universitário não faz o rock morrer, não destrói a bossa nova, não extingue o blues. Eis uma característica que desmitifica esse aspecto nefasto da cultural contemporânea: a coexistência de múltiplos gêneros.

Houve também muitas críticas a cerca do sucesso internacional de Teló. Para o ano que vem, o cantor prepara sua turnê em vários cantos do planeta. Há versões de Ai se eu te pego em inglês, espanhol, alemão, italiano, polonês. Há quem diga que o cantor é uma péssima imagem do Brasil e que vai exportar uma música simples, pop. Me lembro quando o ex-beatle George Harrison, em 2001, fez uma versão da pop Anna Júlia dos Los Hermanos: imensos pontos positivos para a banda carioca e um orgulhinho de ser brasileiro. Mais seguro exportar a tal e velha MPB, que é uma música saturada, do que o sertanejo universitário, menos saturado.

Motins são planejados no Facebook, declarações de suicídio não param de surgir no Twitter, blogueiros imploram a chegada de 2012. Nunca entendi tanta comoção a cerca de um des-gosto cultural. Como dizia Raul Seixas, “se o rádio não toca a música que você quer ouvir (…) é muito simples, é só mudar a estação”, garanto que gastarás menos tempo do que ligar o computador, logar no Facebook/Twitter e reclamar.

A pátria de livros?

Facebook é a mídia da vez. É lá que coisas fantásticas e horríveis acontecem, que internautas compartilham informações surpreendentes e desnecessárias. É lá também que os usuários se expõem a males graves, os virais. Essa nova categoria virtual surge para satisfazer uma antiga necessidade humana: a de se expressar. No caso dos virais, vai muito além disso: expressar o seu posicionamento perante um assunto/fato/coisa, expurgando posicionamentos alheios que podem se confrontar com o próprio. Delimitar que essa ou aquela pessoa é contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, que fulano é contra a violência infantil, que beltrano é “pra casar” e pólvoras afora. Divertimento inocente? Nem sempre.

Viral também foi o assunto do post anterior. E como anteriormente, o dito denuncia interessantes constatações sobre a relação entre comportamento real e virtual. É tarefa quase impossível datar um viral, dificilmente sabemos sua autoria, se foi modificado e qual seu objetivo (como em quase todo material virtual e, por que não, material). A questão em jogo é a divulgação desses materiais, a motivação de alguns usuários em publicar maneiras de se dividirem entre bilhares de gotas d’água, já que habitam em nuvens. Claro que as motivações são inúmeras (em se tratando de comportamento humano na internet, Freud pediria ajuda), mas não pretendo aqui definir, distinguir e muito menos catalogar espécies (tarefa muito bem executada pelos sites/blogs de humor).

Há algumas semanas, começou a correr pelo Facebook um viral que mexeu com a classe intelectual da rede:

Não gosta de funk, mas curte uma vírgula e uma caixa alta como ninguém!


Vê-se que livros-ouvintes se entristecem e cometem suicídio quando um funk é executado. Historicamente, a ideia “livro” é símbolo de racionalidade, da soberania intelectual sobre a ignorância. Quer dar pinta de intelectual? Seja visto numa livraria, diga que o livro é melhor que o filme ou abra uma conta no Skoob. A preocupação política (ou a falta dela) em abrir novas bibliotecas e melhor equipar as já existentes é uma das evidências do bookpower. A eterna comoção pela queima de bibliotecas por governos repressores como o Bücherverbrennung nazista, a redução a pó do berço da civilização ocidental contida na Biblioteca Nacional do Iraque durante a invasão norte americana do país em 2003, a destruição do mundo helenístico do século III a.C. na mais famosa incineração livresca do mundo, a da biblioteca de Alexandria são alguns exemplos do poder da cultura do livro. Claro que queimar livros é uma atitude reprovável sobre qualquer ponto de vista; e é igualmente incontestável que desde o século XVI, com a ascensão da burguesia, a ideia “livro” se tornou um status social.

O funk a que se refere o viral é provavelmente o funk carioca moderno. Produto de infinitas mutações do gênero musical funk da década de 60, o funk carioca que ganha a mídia hoje é o das letras obscenas e pancadas rítmicas, o pancadão. Há imensa recusa por parte dos brasileiros em considerarem o pancadão como estilo musical, ou até como música. Fora o asco por tudo o que venha do quintal pra lá, o pancadão é comumente catalogado como música para dançar. Atrelado também (mas não exclusivamente) às classes mais baixas, dos morros cariocas, o funk que se desenvolveu ali retrata uma realidade que é, muitas vezes, tão distante da do resto da cidade (cidade de contrastes?).

Como água e óleo, livros e funk não se misturam, segundo a dita imagem. Há nisso uma ideia equivocada dos dois elementos. O livro descansa em prateleiras, como um tesouro, algo a ser exposto. Símbolo de seu imaculado valor. Como na cultura plástica atual, em que aparência passou a ser valor máximo da contabilidade emocional, os livros são externos, algo a ser apreciado como valor meramente estético, não mais intelectual. Escritórios podem ser decoradas com peças de madeiras ocas que são desenhadas em formato de livros, expressando todo requinte de se ter livros em casa, mas sem a indigesta traça. Possuir os títulos de “devorador de livros”, “rato de biblioteca” ou “traça de livraria” catapulta o indivíduo a um seleto patamar de pessoas que detêm uma aura mágica por simplesmente lerem. Ao mesmo tempo, quem habita esse altar parece que deve ficar longe da cultura popular, distante de uma linguagem que parece ser inferior a sua, inválida. Será que quem lê possui uma alma tão transcendente a ponto de não poder mais habitar a reles evidência de outras realidades? Em que ponto a leitura divide o mundo em valias? A leitura segrega sim objetos, realidades, fatos e ideias para questionar, provocar, reafirmar, analisar, abominar, duvidar. Sim, é terminantemente possível abominar o funk, válido! Porém, argumentar um des-gosto com uma categoria intelectualizadora como o livro, é um equívoco. Não gosto de música de loja de roupa por simplesmente não gostar.

Olhando livros em prateleiras fico pensando o tanto que eles não pertencem àquele espaço. Não nasceram ali. Livros são produtos finais de histórias passadas e matérias primas de histórias futuras. Mas não estão lá, nem existem na verdade. Lembra-se das pessoas-livros do Fahrenheit 451?

Quanto mais a nuvem do Facebook cresce, mais evidente fica o caráter tribal que a internet absorveu da realidade material. A crença em um mundo virtual sem fronteiras é um bibelô de luxo que insistem em vender. Quando Senhora de José de Alencar ouvir Tá Na Minha Hora de Adriana Calcanhotto, tomará doses mortais de aspirinas; A Mulher de Trinta Anos de Balzac injetará botox na veia quando ouvir Geração Coca-Cola da Legião Urbana; o que será de Noite na Taverna de Álvares de Azevedo quando ouvir I Can See Clearly Now de Jimmy Cliff?

Quem criou o viral em questão deve, no mínimo, ter lido Nietzsche no original!

A César o que é de César

A polêmica história de Rafinha Bastos com Wanessa Camargo e seu nem nascido filho parece último capítulo de novela das onze: quando você acha que o ruim acabou, uma novidade pior aparece. Logo depois da piada de péssimo gosto disparada por Bastos no programa CQC do dia 19 de setembro, choveram críticas contra o nobre rapaz. Após alguns dias, depois de gasto quase todo estoque de argumentos pró-família/amor/humanidade, surgiram os argumentos pró-Rafinha. A discussão que surgiu disso foi positiva: os limites do humor. Ou antes, o que é o humor? Não vou entrar no mérito de definir se a atitude de Bastos foi certa ou errada. Esse campo minado só é passível de discussão com um devido recorte temático/ideológico, coisa que não farei aqui. Porém, é inquestionável o descompasso da piada e o rumo torto que o apresentador seguiu depois da polêmica.

Desde quando surgiu, em 2008, o CQC se vangloria de ser um programa crítico, elevando o humor a um status político, social, midiático, popular (?). Assim, os apresentadores que ali trabalham gozam da mesma fama, apesar de uns ganharem mais enfoque que outros. Incontestavelmente, a dupla Rafinha Bastos e Danilo Gentili são as figuras mais conhecidas, comentadas e polêmicas do programa. Bastos tem mais de 3 milhões de seguidores no Twitter e os vídeos do canal de Gentili no Youtube já foram vistos por mais de 20 milhões de pessoas. O sucesso é proporcional à repercussão que suas palavras têm. Danilo Gentili lançou o stand-up comedy Politicamente Incorreto dois dias antes das eleições de 2010, angariando certo barulho com frases-bomba: “A imprensa não colabora com o Lula… Você abre o jornal e tem mais letra que figura”, “O petista perdeu o direito de discutir ideologia quando se aliou ao Collor e ao Sarney” e “A única coisa que o Netinho já fez pelo bem comum foi parar de tocar pagode”. Rafinha Bastos é mais habituado à polêmica. Já fez vídeo ironizando o bullying, disse que Nextel é celular de traficante (referência ao garoto propaganda da empresa, Fábio Assunção), afirmou que mulher feia deveria agradecer por ser estuprada, que os rondonienses são feios e estranhos, fora uma imensa coletânea de frases sobre sexo, pênis e masculinidade. Nada de diferente das piadas sobre português, gaúcho, loira, político brasileiro, nordestino, judeu, emo. Apesar de ser ardilosa qualquer definição, o humor produzido pelos dois me parece híbrido: algo entre a crítica política e social, como citado acima, e o insulto, como no título do último DVD de Rafinha Bastos, A Arte do Insulto.

Mesmo tendo um repertório imoral, ilegal e que engorda, Bastos viu o seu comentário sobre a grávida Wanessa Camargo tomar proporções gigantescas. Repito que não vou responder à pergunta “quem está com a razão” (será que há?), mas uma imagem me chamou a atenção no rebuliço dessa luta pela verdade:

Nela, como se vê, colocaram Rafinha Bastos ao lado do deputado federal Paulo Maluf, numa comparação infeliz, tentando dissimular a repercussão da piada. No Facebook, rede em que a imagem se disseminou, os compartilhamentos eram feitos com a clara intenção de julgar um erro em detrimento de outro. Isso fica evidente na própria imagem. Esse tipo de argumentação está se enraizando na sociedade atual e é mais comum do que se imagina. O dito Tu quoque do Argumentum ad hominem (algo como: Você também do Argumento contra a pessoa) passou da condição de instrumento retórico para condição existencial. Esse me parece o ponto em que esses discursos estão atrelados. Todos encontrando formas de se ausentar de culpa interna, não deixando a derrota e frustração habitarem as próprias ideias. Seguem alguns exemplos claros e radicais desse tipo de argumentação.

Em 2007, cinco estudantes de classe média do Rio de Janeiro espancaram a doméstica Sirlei Dias em um ponto de ônibus. Quando presos, disseram que confundiram Sirlei com uma prostituta. Também no Rio de Janeiro, no mesmo ano, três homens roubaram um carro no subúrbio da cidade. Os assaltantes removeram todos do carro, menos João Hélio, um garoto de 6 anos de idade, que ficou preso ao cinto de segurança, do lado de fora do veículo. João Hélio foi arrastado pelas ruas por sete quilômetros. Um dos assaltantes disse à polícia que achava que o que estava sendo esfolado ali era um boneco de Judas e não uma criança. Em agosto do ano passado, Willian Waack, o âncora do Jornal da Globo, deixou escapar um berro de “cala a boca” durante a exibição de um pronunciamento da então candidata à presidência do Brasil, Dilma Rousseff. Em nota, a Central Globo de Comunicação afirmou que as palavras nada sutis eram para os redatores que faziam certo barulho no estúdio, o que atrapalhava o trabalho do apresentador.

No entanto, será que um erro desconfigura outro? Nada disso alivia a pena dos culpados, mas tenta justificar o inaceitável. O crime de espancar uma prostituta não é menos grave que o de espancar uma doméstica. Arrastar um boneco de Judas pela cidade com um carro roubado não é menos bizarro que esfolar uma criança viva. Ser rude com os colegas de trabalho não é menos indecoroso que ser rude com uma figura pública em um meio de comunicação. A piada de Rafinha Bastos (violência) não é menos infame que os crimes de corrupção de Maluf (violência). Difícil dizer isso em uma época de tantos relativismos, mas violência é violência; deve ser tratada como tal, com as devidas proporções, claro! Qualquer argumento que incite, prontamente, a aceitação de um problema como compreensível e tolerável deve ser no mínimo questionado.

O ponto máximo do argumento Tu quoque pode ser observado nas palavras de Inri Cristo, que defende o querido, bendito filho e amigo, Rafinha: “Aquele que jamais praticou excessos na dialética, que atire a primeira pedra”.

Rafinha Bastos ainda não pediu desculpas. Muito pelo contrário: publica fotos em seu Twitpic esnobando da situação e grava vídeos com trocadilhos infames do tipo “maminha” e “fraldinha”. Infelizmente, as figuras do humor brasileiro estão adaptando o discurso do Bulverismo de C. S. Lewis, no qual se enfoca o argumento por ele mesmo, à falta explícita da verdade. Pior é quando o público entra nessa falácia e acredita em certos absurdos, transformando-os em pequenas sementes de violência.

O som de quase tudo

Na crônica E durma-se com um barulho desses publicada na Ilustrada de domingo passado, Ferreira Gullar reclamou do barulho. O escritor afirmou que vivemos, atualmente, em um mundo saturado de sons, seja no elevador de edifício comercial, no banheiro de restaurante ou no supermercado. Segundo Gullar, a poluição sonora é tão degradante quanto a provocada pela queima de combustíveis nas ruas. Nada mais evidente! Claro que não podemos dizer que o excesso sonoro é um problema que surgiu com o homem contemporâneo, mas que foi sendo inflado com a modernização das cidades e chegou a um ponto crítico, não há controvérsias!

Hoje, tudo parece ser ruído. Aplicativos como Messenger, TweetDeck, Avast entre tantos outros, utilizam sons para quase todos os comandos. Até mesmo a música: atire a primeira pedra quem não liga o computador e, imediatamente, abre o iTunes, WMP ou Winamp; quem não dá partida no carro sem o som ligado; quem não deixa o MP3 player sossegado. Essa mania musical não tem nada a ver com gosto. Os estilos, vertentes, movimentos ou como se quer denominar, continuam sendo construções sociais a fim de modelar certo imaginário estético. É assim desde o princípio. O problema aqui é ontológico.

Para quem deseja estar bem informado sobre o universo da música atual, deve, primeiramente, assumir a impossibilidade de tal intento. São tantas novidades acontecendo ao mesmo tempo e em todos os cantos do planeta, que o temido “conheço de vista” passou a ser muito bem visto! É uma característica quase unânime nos círculos de imprensa e opinião. Velocidade em nosso tempo é quase um eufemismo de contemporâneo. Os ouvidos, assim como o cérebro, estão trabalhando cada vez mais rápido. Ouvir música enquanto estuda, escreve, dirige, compra, almoça, trabalha entrou para o time das nossas atitudes modernas. Cabe ressaltar para os relativistas que isso é um recorte temporal, que não exclui as atitudes de outras épocas, modernas em seu tempo. Se o gosto já foi descartado das proposições, qual será a motivação dessa mania?

O hipertexto, as possibilidade (in)finitas de comunicação, a necessidade sagrada de estar conectado e a culpa gerada por não dar conta disso tudo são alguns dos fatores que podem ajudar na resposta. O silêncio como sinônimo de vazio é temido nas redes sociais e grupos virtuais. Quando o internauta se pergunta “o que faço aqui?” ou “o que quero disso?” qual será sua resposta? Certamente, terá a mesma da pergunta milenar “quem sou eu?”. A arte e a religião estão aí para provarem que, além do homem não saber a resposta, ainda a teme. Ignorando e temendo a resposta, o homem se vale de preenchimentos sensíveis para fugir dessa condição: consome arte, transcende o espírito, crê no mundo, acredita no próximo (mesmo que esse próximo se materialize em .jpeg).
Outro aspecto relevante dessa mania musical generalizada é a definição de uma construção imagética prontamente definida, sem parâmetros estéticos da arte para isso. Executa-se qualquer faixa musical em qualquer lugar. Tecnogay virou música de loja de roupa, por exemplo. O que seriam dos restaurantes sem Leila Pinheiro? Os vínculos musicais se tornam cada dia mais fragmentados e impessoais.

Claro que buscar um espaço de silêncio é cada vez menos interessante. Estamos já viciados com os fones nos ouvidos ao fundo dos acontecimentos do dia. Talvez seja a nova ordem que está sendo gerada nesse mundo com tantas faíscas de sons. Ferreira Gullar ponderou que não se referia aos ruídos permanentes como ironia para falar de determinado gênero, estilo, tipo musical (como algumas mentes tramam). É a perenidade com que os sons são impostos ao nosso redor, o caráter constante com que a nossa liberdade é deflagrada a cada visita ao shopping, a cada consulta ao dentista. Não à toa, o escritor disse que “o mundo inteiro hoje parece acreditar que todas as pessoas desejam ouvir música 24 horas por dia”. Seria imensamente proveitoso ensurdecermos, momentaneamente, por opção. Pena que isso é tão perigoso!

*Xilogravura de Rubem Grilo

Açúcar, afeto e diabetes

Não é de hoje que os tupãs populares da música brasileira tratam da sensibilidade ao outro em suas cantorias. Desde os antigos sambas cariocas, o discurso do “nós”, atrelado às classes mais baixas (samba de morro), é constante nas canções. A descoberta de uma tal Cultura Nacional e a sedimentação da influência estrangeira ao longo do tempo promoveram mudanças: os ritmos variaram, instrumentos foram importados, ideologias foram incorporadas, mas, ao que me parece, uma categoria insiste em permanecer. Sim, é a primeira pessoa do plural que ainda sobrevive! É um caráter que toma cada vez mais espaço nas timelines, ainda mais com as mídias sociais distribuindo com uma velocidade alucinante tudo o que diz respeito a açúcares e afetos. Outro fenômeno interessante também pode ser visto graças às queridas mídias: a alergia nervosa que a sacarose pode causar em alguns organismos.

O movimento que acontece na atual música brasileira não é novo, mas é novidade. Fazendo novamente uma pequena digressão, desde meados da década de 30, com a fundação da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, a música popular passou a ser expressão quase máxima da vida social do brasileiro: o machismo dos sambas de morro, o mauricismo engajado da bossa nova, a rebeldia motorizada da jovem guarda, a psicodelia mutante, a alienação discotecada, o explicitado funk implícito. Tudo isso colocando os olhos na rua e os pés no estúdio. Se a estética da produção musical de uma época é retrato de seu próprio tempo, a estética da segunda década do século XXI poderá ser chamada de diabetes?

A reconfiguração desse velho caráter pode ser ouvido nos discos ou no Grooveshark de cantoras como Luisa Maita, Roberta Sá, Cibelle, Tulipa Ruiz e Céu. No entanto, Marcelo Jeneci, Vanessa da Mata e Marcelo Camelo são os expoentes mais emblemáticos (e conhecidos) que a popular música brasileira tem para mostrar seus afetos. O primeiro, com seu discurso assumidamente romântico, declara que “Largo tudo/Se a gente se casar domingo” e que “Dar-te-ei a mim mesmo agora/E serei mais que alguém que vai correndo pro fim”. Já Vanessa da Mata, com composições que vão do divertimento maroto ao bucolismo urbano, pede: “Case-se comigo/Antes que amanheça” e “Não me deixe só/Eu tenho medo do escuro/Tenho medo do inseguro/Dos fantasmas da minha voz”; assume: “Entre tantas paixões/Esse encontro/Nós dois” e “Agora mais que nunca somos o tal casal/Apaixonado, apaixonado”. Do lado mais experimental do trio está Marcelo Camelo, que também contribui para o discurso do romance afetuoso: “E o amor é lindo deixo/Tudo que quiser eu não me queixo em ser” e “Tudo o que você quiser/Tempo de recomeçar/Coração no seu lugar/Na cidade que não volta”.

http://www.youtube.com/watch?v=w63Aqyht2Cg

É fato que essas e tantas outras novas canções populares do Brasil sofreram um processo de simplificação técnica e composicional. São assumidamente simples, sem a preocupação de fazer canções intelectualizadas e com grande valor ideológico. Tentam encontrar, em um discurso conciso, a grandiosidade de sentido. Essa é uma das críticas mais comuns a esse caráter musical, confundir simplicidade com vazio. O que está por trás dessa nova estética musical é a tentativa de sobrevivência de um sujeito cultural que ficou por tanto tempo relegado à violência auditiva, visual, ideológica de gerações e gerações. Grande parte desses “novos expoentes da MPB” não vêm de “estados centrais” (RJ/SP), o que abre ainda mais a perspectiva de uma visão plural e sem vícios. É o caso do conjunto curitibano A Banda Mais Bonita da Cidade, que teve seu clipe Oração visto por mais de sete milhões de pessoas no youtube. Quando lançado, em maio deste ano, provocou sensações de amor e ódio nas redes sociais. Quem gostou, adorou (e retuitou). Quem não gostou, repudiou. Houve até casos de crise de diabetes. Ora, o discurso retratado ali é de um “nós” como em qualquer música popular! Mas a ousadia de ser abertamente romântico e estabelecer relações de afeto com o outro-além-eu é visto como petulância e exagero pela nossa herança culturalmente racional. O que esperamos que mude, até que a próxima estação nos jogue a outro litoral!

*A imagem acima é capa do disco Sou (2008) de Marcelo Camelo.